I. - O episódio da Ressurreição de Lázaro
A ressurreição de Lázaro, narrada no Evangelho de João (Capítulo 11), não é apenas o relato de um milagre biológico, mas uma das mais profundas alegorias teológicas sobre a regeneração espiritual. No contexto cristão, Lázaro representa a condição da humanidade: paralisada e em decomposição sob o peso do pecado.
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| Ressurreição de Lázaro, Giotto di Bondone, Capela Scrovegni |
Segue uma breve exploração dos aspectos religiosos e simbólicos desse evento:
I.1. A Morte para o Pecado: O Túmulo Interior
Teologicamente, estar "morto" há quatro dias, como Lázaro, simboliza um estado de separação total de Deus. O pecado, nessa perspectiva, é uma força que encarcera o indivíduo em um "sepulcro" de egoísmo, vícios ou desespero.
A Voz de Cristo: O comando "Lázaro, vem para fora!" é interpretado como o chamado da Graça, que atravessa a barreira da morte espiritual.
O Despertar: Ressuscitar significa abandonar a escuridão do erro para buscar uma vida digna e limpa, movida por uma nova consciência ética e espiritual.
I.2. As Amarras: O Homem não se Liberta Sozinho
Um detalhe crucial do texto bíblico é que, embora Jesus dê a vida a Lázaro, Ele ordena aos que estão presentes: "Desatai-o e deixai-o ir" (João 11:44).
Lázaro sai do túmulo vivo, mas ainda está preso por faixas, sudários e amarras. Isso traz uma lição teológica fundamental sobre a comunidade e a interdependência humana:
A Cura Comunitária: Muitas vezes, mesmo após decidirmos mudar de vida (a ressurreição interna), ainda carregamos os "trapos" do passado — traumas, maus hábitos ou estigmas.
A Ajuda do Próximo: Jesus demonstra que a libertação plena exige a mediação de outros homens. Precisamos de mãos humanas para nos ajudar a tirar as faixas que nos impedem de caminhar livremente. É o papel da Igreja, da família, dos amigos e da caridade.
Humildade na Libertação: Ser desatado por outro exige humildade. Aceitar que precisamos de ajuda para remover nossas "amarras" é o passo final para uma vida verdadeiramente nova.
Baseado na importância desse evento, A Ressurreição de Lázaro foi um tema que desafiava a imaginação dos grandes pintores. Publicamos abaixo cinco obras importantes realizadas por grnades nomes da pintura.
II. Cinco representações famosas -
a) Eugene Delacroix, 1850, Kunstmuseum Basel (Museu de Arte da Basileia), na Suíça.
Diferente de outras versões onde Jesus está isolado em um gesto de comando estático, aqui Delacroix cria um redemoinho de corpos. A cena é marcada por uma diagonal dinâmica que vai do esforço do homem levantando a pedra do sepulcro (no canto inferior esquerdo) até a abertura da caverna ao fundo.
O centro luminoso é o manto branco de Cristo e a figura de Lázaro, que ainda parece exausto e pálido, sendo amparado por braços humanos. A luz de Delacroix não é apenas divina; ela tem uma qualidade teatral, quase "suja" e vibrante, que enfatiza o caos do momento.
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| Eugene Delacroix, 1850, Museu da Basileia, Suíça |
Como é típico de Delacroix, o foco não está apenas na perfeição anatômica, mas na emoção crua. As irmãs de Lázaro, Marta e Maria, estão em poses de desespero e espanto, e as pinceladas rápidas e visíveis conferem uma sensação de urgência ao milagre.
Observe como a figura de Lázaro está literalmente sendo "desatada" e carregada por outros. Delacroix enfatiza o peso físico do corpo que volta à vida, reforçando aquela ideia teológica da necessidade da ajuda mútua para a libertação final.
b) Rembrandt van Rijn, 1630 a 1632, Museu de Arte, do Condado de Los Angeles (LACMA)
Esta é possivelmente a versão mais dramática e teatral de Rembrandt van Rijn sobre o tema. Nela, o mestre holandês utiliza o contraste entre luz e sombra (tenebrismo) para transformar o milagre em um evento de puro impacto emocional e autoridade espiritual.
Análise da Obra:
Jesus é o eixo central da composição. Ele está em uma posição elevada, com a mão direita erguida — um gesto que evoca tanto o comando divino quanto a criação. Ele não toca Lázaro; ele o traz de volta à vida apenas com o poder de sua voz e presença.
Rembrandt utiliza a luz não apenas como estética, mas como ferramenta narrativa. A luz parece emanar da própria tumba aberta, iluminando os rostos atônitos das testemunhas (incluindo as irmãs de Lázaro, Marta e Maria) e o próprio Lázaro, que começa a emergir da escuridão do sepulcro.
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Rembrandt, 1630 a 1632, Museu de Arte do Condado de Los Angeles (LACMA) |
No canto superior direito, pendurados na parede da caverna, vemos uma espada e uma aljava com flechas. Muitos historiadores da arte interpretam esses objetos como símbolos da vitória de Cristo sobre a morte ("a morte é vencida pelo Rei") ou como troféus espirituais.
Observe a expressão de pavor e maravilha nos rostos das figuras à esquerda. Rembrandt era um mestre em capturar a reação humana diante do inexplicável, e aqui o espanto é quase palpável.
c) Vincent Van Gogh, Maio de 1890, Museu Van Gogh, Amsterdã
Esta é uma das obras mais emocionantes e pessoais de Vincent van Gogh. Pintada em um momento de extrema fragilidade, ela é uma "tradução" em cores de uma gravura de Rembrandt que Vincent admirava profundamente.
Diferente de todas as outras versões, Van Gogh optou por remover a figura física de Jesus da cena. Em vez disso, o poder divino é representado pelo sol radiante ao fundo. Para Vincent, o sol era o símbolo máximo da força vital e da divindade.
Muitos historiadores da arte apontam que o rosto de Lázaro, com a barba ruiva, é um autorretrato (ou inspirado em suas próprias feições). Van Gogh sentia que sua luta contra a doença mental era uma espécie de morte em vida, e a pintura simbolizava seu desejo de "ressuscitar" para a saúde e para a arte.
As figuras femininas (Marta e Maria) são retratadas com cores vibrantes e contornos fortes. Elas representam o amparo e a conexão humana. A mulher de verde, em particular, parece estender a mão para ajudar Lázaro a emergir de sua letargia.
O uso intenso do amarelo ocre e do azul é típico de sua fase em Saint-Rémy. As pinceladas são curtas, curvas e carregadas de tinta (empasto), criando uma superfície que parece vibrar com energia, como se a própria terra estivesse pulsando no momento do milagre.
d) Giotto di Bondone, Capela Scrovegni, Pádua
Este afresco de Giotto di Bondone é um dos marcos fundamentais de toda a história da arte ocidental. Com ele, Giotto inicia a transição da rigidez da arte medieval para o naturalismo que definiria o Renascimento.
A Obra:
Observe o rosto das irmãs de Lázaro, prostradas aos pés de Jesus, e a expressão de choque dos apóstolos. Giotto foi o primeiro a dar sentimentos individuais às figuras, abandonando os rostos padronizados da tradição bizantina.
Um dos elementos mais famosos deste afresco são as duas figuras à direita que cobrem o nariz com seus mantos. Isso é uma referência direta ao texto bíblico ("Senhor, já cheira mal, pois é de quatro dias") e demonstra o compromisso de Giotto com o realismo da cena.
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| Giotto di Bondone, 1304 a 1306, Capela Scrovegni, Pádua |
Volume e espaço: As figuras têm peso e ocupam um espaço tridimensional. Note como o manto de Lázaro, ainda envolto em faixas, sugere um corpo sólido por baixo. A montanha ao fundo serve para dar profundidade à composição.
As amarras de Lázaro: Nesta obra, Lázaro aparece totalmente mumificado. Ele está fisicamente impossibilitado de se mover sozinho. É a representação mais literal da necessidade de que outros homens (as figuras que o amparam) intervenham para remover as faixas e permitir que ele caminhe novamente, conforme a ordem de Cristo.
e) Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1609, Museu Regional de Messina
Essa é uma das pinturas mais viscerais e dramáticas de toda a sua carreira, marcada por um realismo quase assustador.
Análise da Obra:
Realismo: Diferente das versões mais "limpas" do Renascimento, Caravaggio retrata Lázaro de forma crua. O corpo está rígido, com os braços abertos em um gesto que ecoa a crucificação, e a pele tem a palidez da morte. Diz a lenda que Caravaggio usou um cadáver real como modelo para garantir a precisão da rigidez cadavérica.
O Gestual: Jesus está à esquerda, na penumbra, estendendo o braço em um gesto que lembra muito a sua outra obra famosa, A Vocação de São Mateus. É um comando de autoridade absoluta que atravessa a escuridão.
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| Caravaggio, 1609, Museu Regional de Messina |
Participação humana: Observe como Lázaro não flutua nem se levanta sozinho. Ele está sendo segurado e amparado por outros homens. Isso reforça perfeitamente aquela ideia que discutimos: a vida é devolvida por Deus, mas o suporte físico e a "libertação" das faixas dependem da comunidade ao redor.
Chiaro escuro: O fundo é uma escuridão vasta e vazia, o que foca toda a atenção no momento exato em que a luz (a vida) toca a carne morta. A luz não vem de uma janela, mas parece ser uma luz espiritual que revela o milagre.
Caravaggio pintou esta tela enquanto estava fugindo, após ter escapado da prisão em Malta. Ele estava em um estado psicológico muito conturbado, o que talvez explique por que esta pintura é tão carregada de uma sensação de urgência, perigo e sombras profundas.
III - Reflexão sobre "A Ressurreição de Lázaro" pelo Papa Francisco
O Santo Padre indicou que o Senhor “nos convida, quase nos ordena, a sair do túmulo em que os nossos pecados nos afundaram. Chama-nos com insistência para sairmos da escuridão da prisão em que nos fechamos, contentando-nos com uma vida falsa, egoísta, medíocre. ‘Vem para fora!’, noz diz, ‘Vem para fora!’”.
“O Evangelho deste domingo de Quaresma nos narra a ressurreição de Lázaro. É o ápice dos ‘sinais’ prodigiosos feitos por Jesus: é um gesto muito grande, muito claramente divino para ser tolerado pelos sumos sacerdotes, os quais, sabendo do fato, tomaram a decisão de matar Jesus”.
Francisco recordou que “Lázaro já estava morto há três dias, quando chega Jesus; e às irmãs Marta e Maria Ele disse palavras que ficaram gravadas para sempre na memória da comunidade cristã. Jesus diz assim: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais’”.
“Sobre esta Palavra do Senhor nós acreditamos que a vida de quem crê em Jesus e segue o seu mandamento depois da morte será transformada em uma vida nova, plena e imortal. Como Jesus ressuscitou com o próprio corpo, mas não retornou a uma vida terrena, assim nós ressurgiremos com os nossos corpos que serão transfigurados em corpos gloriosos”.
O Papa assinalou que Jesus “nos espera junto ao Pai e a força do Espírito Santo, que O ressuscitou, ressuscitará também quem está unido a Ele”.
“Diante do túmulo lacrado do amigo Lázaro, Jesus ‘exclamou em voz forte: Lázaro, vem para fora’. O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano. Este grito peremptório é dirigido a cada homem, porque todos estamos marcados pela morte, todos nós; é a voz Daquele que é o Senhor da vida e quer que todos ‘a tenham em abundância’”.
O Santo Padre destacou que “Cristo não se conforma com os túmulos que construímos para nós com as nossas escolhas do mal e da morte, com os nossos erros, com os nossos pecados. Ele não se conforma com isso! Ele nos convida, quase nos ordena, a sair do túmulo em que os nossos pecados nos afundaram”.
“É um belo convite à verdadeira liberdade, a deixar-nos agarrar por estas palavras de Jesus que hoje repete a cada um de nós. Um convite a deixar-nos livrar das ‘ataduras’, das ataduras do orgulho. Porque o orgulho nos faz escravos, escravos de nós mesmos, escravos de tantos ídolos, de tantas coisas”.
“A nossa ressurreição começa aqui: quando decidimos obedecer a esta ordem de Jesus saindo para a luz, para a vida; quando da nossa face caem as máscaras – tantas vezes estamos mascarados pelo pecado, as máscaras devem cair! – e nós reencontramos a coragem da nossa face original, criada à imagem e semelhança de Deus”.
Francisco assinalou que “o gesto de Jesus que ressuscita Lázaro mostra até onde pode chegar a força da Graça de Deus e também até onde pode chegar a nossa conversão, a nossa mudança. Mas ouçam bem: não há limite algum para a misericórdia divina oferecida a todos! Não há limite algum para a misericórdia divina oferecida a todos! Lembrem-se bem desta frase. E possamos dizê-la todos juntos: ‘Não há limite algum para a misericórdia de Deus oferecida a todos’”.
“O Senhor está sempre pronto para levantar a pedra do túmulo dos nossos pecados, que nos separa Dele, a luz dos vivos”, concluiu.
IV. - Referências
Vatican News - Homilia do Papa Francisco
Gemini - Análise das Obras
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