sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"Palazzo Colonna e a Coluna que não Verga – Mil Anos de História no Coração de Roma"

 I. - Introdução


Nessa postagem vamos descrever o Palácio Colonna que é um dos maiores e mais antigos palácios particulares de Roma.
A família Colonna remonta ao século XII e provém do povoado de Colonna, nas redondezas de Roma, de onde leva seu nome.
construção do Palácio começou no século XIV por iniciativa da família Colonna que reside no local permanentemente há oito séculos.
Ao longo de 1600, o Palácio assumiu a forma de um grande palácio barroco, por iniciativa de três gerações da família. Trabalharam no palácio artistas famosos como  Gian Lorenzo Bernini, Antônio del Grande, Carlo Fontana, Paolo Schor e muitos outros.
Grande Sala, Palazzo Colonna, foto HistoriacomGosto

Foi nessa época também que houve a construção da esplêndida e majestosa Galeria Colonna que se debruça, por 76 metros, sobre Via IV Novembre;
Em resumo: Caminhar pelas salas do Palácio Colonna é entender que os Colonna nunca se viram como meros súditos. Eles eram aliados de imperadores e Papas. A suntuosidade das salas grandes, com seus espelhos venezianos e afrescos monumentais, era a moldura perfeita para a família que funcionou como um enclave imperial em Roma, garantindo que o poder   de Carlos V fosse sentido dentro de cada centímetro de mármore do palácio. 
Posteriormente, a partir de 1511, a família Colonna ganhou o título de "Principe Assistente al Soglio Pontificio" que era o compromisso da família de serem os principais assistentes do trono papal e com isso tinham acesso e assento privilegiado nas cerimônias e decisões civis, consolidando sua influência em Roma.
A seguir detalharemos um pouco mais dessa fascinante história e das belezas do Palácio na forma atual.

II. - A Dinastia Colonna: Mil Anos de Poder em Roma


Falar da família Colonna é, em essência, contar a própria história de Roma. Com raízes que remontam ao século XII (e lendas que os ligam aos antigos cônsules romanos), os Colonna não foram apenas espectadores da história; eles foram seus arquitetos, guerreiros e, por vezes, seus maiores rebeldes.


II.1 Uma Linhagem de Ferro e Fé

A ascensão definitiva da família ao topo da pirâmide social europeia consolidou-se com a eleição de Oddone Colonna como o Papa Martinho V (1417-1431). Ele foi o responsável por trazer o papado de volta a Roma após o Cisma do Ocidente, iniciando a reconstrução da cidade e transformando o Palácio Colonna no centro do poder mundial por quase uma década.

Papa Martinho V, fonte Wikipedia



Entre a Espada e a Cruz

A história da família é marcada por uma dualidade fascinante:

A Glória Militar: O maior herói da linhagem, Marcantonio II Colonna, liderou a frota papal na lendária Batalha de Lepanto (1571), vencendo os otomanos e garantindo o status da família como "Defensores da Cristandade".

Príncipe Marcantonio II de Colonna, fonte wikipedia

A Rivalidade Histórica: Por séculos, os Colonna protagonizaram uma disputa feroz (e muitas vezes sangrenta) contra a família Orsini pelo controle de Roma, uma rivalidade tão profunda que influenciou a política de sucessivos papados.


II.2 Presença Imortal

Diferente de muitas dinastias que se perderam no tempo, os Colonna mantêm sua relevância até hoje. Através de figuras como a poetisa Vittoria Colonna — musa e confidente de Michelangelo — e de uma sucessão de Príncipes que serviram ao trono papal, a família conseguiu o que poucos conseguem: atravessar dez séculos habitando o mesmo solo, preservando um patrimônio que é, simultaneamente, um lar vivo e um museu da humanidade.

Vitoria Colonna 2, fonte: galleriacolonna.it


III. A Anatomia de um Gigante: Como se divide o Palácio Colonna

O complexo é uma "cidade dentro da cidade", composto por diferentes alas que refletem os gostos de várias gerações da família. Podemos dividi-lo em quatro áreas principais:


III.1 - A Galeria Colonna (A Ala de Prestígio)


É a joia da coroa e a parte que o público mais conhece. Foi construída no século XVII para ser uma vitrine de poder.

As Salas: Divide-se em ambientes magníficos como a Sala da Coluna Bélica, a Grande Galeria (com seus espelhos e afrescos), a Sala dos Primitivos e a Sala da Apoteose de Martinho V.

Sala da coluna bélica, fonte: palazzo colonna


Sala da Apoteose, fonte galleriacolonna.it


O Estilo: É o triunfo do Barroco Romano, onde as molduras douradas, o mármore colorido e os tetos pintados criam uma experiência imersiva.


III.2.  Apartamentos Privados (Apartamento Princesa Isabelle)

Enquanto a Galeria era para recepções oficiais, os apartamentos eram o coração da vida doméstica da nobreza. 

Diferente de outras alas do palácio que foram convertidas puramente em museus ou escritórios, a Princesa Isabelle viveu nesses aposentos até o fim de sua vida, em 1984. Ela amava profundamente o lugar e cuidava pessoalmente de cada detalhe. O fato de ela ter vivido ali por 75 anos garantiu que o ambiente não fosse descaracterizado.


Princesa Isabelle, foto galleriacolonna.it


Pequena história da Princesa Isabelle Colonna -"A Vice Rainha de Roma"

Nascida Isabelle Sursock, de uma família aristocrática libanesa (frequentemente chamados de "Os Rothschild do Oriente"), ela casou-se com o Príncipe Marcantonio VII Colonna em 1909.

Isabelle não foi apenas uma moradora; ela foi a alma do palácio durante grande parte do século XX. Sua importância é tão vasta que ela era apelidada de a "Vice-Rainha de Roma". Enquanto a monarquia italiana caía e a política mudava, Isabelle manteve o Palácio Colonna como um centro inabalável de influência, cultura e diplomacia.

Grande dama de corte, inteligente, culta, conservadora no sentido mais puro e coerente, após a queda da monarquia tinha lhe acontecido substituir Maria José como “rainha suplente”, oferecendo recepções reais às quais eram admitidas unicamente cabeças coroadas e, entre os burgueses, apenas financistas e banqueiros, com a condição que, obviamente, não fossem divorciados“ 
(desta forma a recorda Laura Laurenzi, no jornal diário La Repubblica de 18 de novembro de 1984, por ocasião do funeral dela).

Nos últimos anos de vida, seu apartamento tinha-se transformado num local de tesouros que ela gostava de mostrar apenas aos amigos mais íntimos.

Atmosfera: Ocupado até meados do século XX pela Princesa Isabelle, o apartamento mantém um ar de "casa vivida", com fotos de família, móveis preciosos e uma coleção de vistas de Vanvitelli.
Sala Vanvitelli
O apartamento abriga a maior coleção privada de obras de Gaspard van Wittel (Vanvitelli). Ele foi o mestre que ensinou os europeus a "verem" Roma através de suas pinturas detalhistas.

Sala de Festas

Era o lugar onde a Princesa Isabelle recebia a "nata" da sociedade romana, chefes de Estado e artistas para eventos menores, jantares de gala privados e chás ou até mesmo audição de música e dança para grupos seletos.

Enquanto a Galeria era um museu de poder, esta sala era uma sala de estar funcional. Era ali que a Princesa exercia seu papel de "Rainha não coroada de Roma".

Sala de festas, foto galleriacolonna.it



Sala della fontana

 Era uma sala de passagem e recepção que impressionava os convidados pelo som da água e pelo frescor.

Sala da fonte, foto galleriacolonna.it



III.3. O Pavilhão Pio e os Pátios Internos

O palácio é estruturado em torno de pátios que garantiam luz e ventilação, mas também serviam para o movimento de carruagens.

O Pavilhão Pio abriga parte da coleção de arte e é uma das alas mais antigas do palácio, mostrando a transição das estruturas medievais para o Renascimento.

Pavilhão Pio, sala da Cornucópia, foto galleriacollona.it


III. 4. O Jardim do Quirinal (O Refúgio Vertical)

Diferente dos jardins horizontais de Versailles, o jardim do Colonna é ascendente.

Pontes de Conexão: O palácio é tão grande que possui pontes internas que cruzam a rua (Via della Pilotta) para levar os moradores diretamente dos aposentos para o jardim na encosta do morro.

Pontes de Conexão, foto HistoriacomGosto


O Cenário: É composto por sebes de buxo, estátuas clássicas, fontes e restos do antigo Templo de Serápis (do século III d.C.), culminando em um terraço com uma vista de tirar o fôlego para o Altar da Pátria e o Capitólio.

Escadaria principal dos jardins, foto HistoriacomGosto

Visão dos telhados de Roma, foto HistoriacomGosto


IV. O Olhar do Colecionador: A Acumulação de Arte como Símbolo de Poder

No Palácio Colonna, as pinturas não foram escolhidas apenas pela estética; cada tela e escultura servia como uma peça no tabuleiro do prestígio político e religioso da Europa. A coleção que vemos hoje é o resultado de séculos de um "olhar de dono", onde a arte era a moeda mais valiosa da nobreza.




IV.1 - O Prestígio Pós-Lepanto e o Grand Tour

A coleção deu um salto monumental após a Batalha de Lepanto (1571). A vitória de Marcantonio II Colonna contra os otomanos elevou a família a um status quase divino em Roma. A partir desse período, os Colonna passaram a encomendar obras que imortalizassem sua glória. 


IV.2 Curadoria Secular: Uma Galeria com "Alma"

Diferente do Louvre ou do Vaticano, onde as obras são deslocadas de seus contextos originais para paredes impessoais, na Galeria Colonna a arte permanece "em casa".

Contexto Vivo: Muitas molduras foram esculpidas especificamente para as paredes onde estão penduradas até hoje. As obras "conversam" com o mobiliário, com os afrescos do teto e com a luz que entra pelas janelas originais.

A Coleção de "Primitivos": Um diferencial raro é a sala dedicada aos Primitivos (obras dos séculos XIV e XV), que mostra que a família já colecionava arte muito antes do auge do Renascimento. Lá, encontramos joias como o Rei David e São Jerônimo (do círculo de Signorelli) e peças de Bernardino di Mariotto, mantidas com o mesmo zelo que as grandes telas barrocas.

IV.3 - A Arte que Salva a História

O processo de acumulação também foi um ato de preservação. Ao contrário de outras famílias nobres que venderam seus acervos em tempos de crise, os Colonna instituíram o fideicomisso no século XIX — um instrumento jurídico que proibia a venda ou dispersão da coleção. É graças a essa decisão que hoje podemos ver o palácio exatamente como ele era há 300 anos.


IV.4 - Algumas obras de arte da coleção


a) Comedor de feijões = Aniballe Carracci, 1580 a 1590

A pintura é famosa por sua abordagem realista e "popular", retratando um vislumbre da vida cotidiana de uma pessoa comum no século XVI, um tema raro para as grandes obras daquela época.
comedor de feijão, sala maior

b) São Paulo Eremita - Guercino, 1637 a 1638
A obra retrata São Paulo de Tebas, considerado o primeiro eremita cristão, em um momento de penitência e oração no deserto. O estilo barroco de Guercino é evidente no uso dramático de luz e sombra (tenebrismo) e na anatomia detalhada do santo.

são paulo eremita, sala maior


c) Madona e a criança com Sant'anna e São João (infantil)



d) Moisés com as tábuas da Lei - Guercino, 1624




e) Um jovem Homem bebendo 

A cena retrata um homem em uma taberna, cercado por elementos de natureza-morta como pães, queijos e uma garrafa revestida de vime, capturando um momento de prazer cotidiano com o forte contraste de luz e sombra típico do estilo caravaggesco



f) São Tiago Maior - Sandro Boticelli e sua oficina, 1485 a 1490

A pintura apresenta o santo com seus atributos tradicionais de peregrino: o manto vermelho e o cajado, contra um fundo arquitetônico clássico que era comum no final do século XV em Florença.




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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Civita di Bagnoregio, A Cidade que morre !

 1. - Introdução: Civita di Bagnoregio: A Pérola Suspensa no Tempo


Civita di Bagnoregio é uma vila periférica da comuna italiana de Bagnoregio, na província de Viterbo, no centro da Itália. Fica a 1 kilometro a leste da cidade de Bagnoregio e cerca de 120 kilometros  ao norte de Roma. O único acesso é uma passarela a partir da cidade vizinha, com pedágio introduzido em 2013. 

Devido ao pedágio, os impostos comunitários foram abolidos em Civita e nas proximidades de Bagnoregio. Devido à sua fundação instável que frequentemente sofre erosão, Civita é conhecida como “a cidade moribunda”. É membro da associação "I Borghi più belli d'Italia" ("As mais belas aldeias da Itália").

A Fundação: Raízes Etruscas

A história da Civita começa há mais de 2.500 anos. Ela foi fundada pelos Etruscos, um povo engenhoso que escolheu o topo de um platô de tufo (pedra vulcânica) por questões estratégicas de defesa.

Civita di Banoreggio,  Visão global da cidade, foto HistoriacomGosto,

Naquela época, a cidade era próspera e bem conectada. Os etruscos já haviam mapeado os riscos geológicos e construído sistemas de drenagem de água para evitar que a chuva desgastasse a pedra macia sobre a qual a cidade repousava.


2. Evolução através do Tempo

  • Era Romana: Após os etruscos, os romanos assumiram o controle, mantendo a importância comercial da vila.

  • Idade Média: É aqui que a cidade ganha a aparência que vemos hoje. Ruas estreitas, arcos de pedra e a Igreja de San Donato (que fica na praça principal) são marcos desse período. Foi também o berço de São Boaventura, um dos filósofos e teólogos mais importantes da Igreja Católica.


3. O Início da Decadência: Por que ela está sumindo?

A "morte" da cidade não foi um evento súbito, mas um processo geológico implacável:

  • A Fragilidade do Solo: A cidade está assentada sobre uma camada de tufo, que repousa sobre uma base de argila e areia. A argila é instável e sofre erosão com o vento e a chuva.

  • O Terremoto de 1695: Este foi o golpe fatal. Um grande terremoto causou o colapso de partes significativas da borda do penhasco, isolando a Civita da cidade vizinha (Bagnoregio).

  • O Abandono: Após o terremoto e sucessivos deslizamentos, os serviços públicos foram transferidos para a parte "nova" (Bagnoregio). A população começou a migrar, deixando a Civita quase deserta e ganhando o apelido dado pelo escritor Bonaventura Tecchi: "A cidade que morre".


4. Como ela está hoje?

Apesar do apelido dramático, a Civita vive uma renascença turística. Ela não está morta, mas sim "congelada".


Vista aérea do vilarejo, foto de © Giovanni Gagliardi em dreamstore.com


a) O que ainda funciona:

  • População: No inverno, apenas cerca de 7 a 10 pessoas vivem lá permanentemente. No verão, esse número sobe para cerca de 100.

  • Comércio: Existem restaurantes charmosos, algumas pousadas (B&Bs) e lojas de artesanato que atendem aos milhares de turistas que visitam o local diariamente.

  • Taxa de Entrada: Para ajudar na preservação e contenção da erosão, cobra-se uma pequena taxa de entrada (cerca de €5).

  • ErosãoA erosão continua até hoje. Recentemente, foram instalados sensores de monitoramento e cabos de aço para tentar segurar as encostas, transformando a cidade em um laboratório vivo de geologia.

foco em um lado do penhasco,
foto historiacomgosto


b) Localizações principais:


b.1) Ruelas e praças em Civita

As ruelas de Civita di Bagnoregio são um verdadeiro labirinto de pedra, onde o tempo parece ter estagnado entre paredes de tufo e portais medievais. Caminhar por elas é descobrir passagens estreitas adornadas com flores coloridas, escadarias desgastadas pelos séculos e varandas que revelam, de repente, o abismo infinito do Vale dos Calanchi. 

Pequena rua em Civita, foto de  © Milla74 | Dreamstime.com


b.2) Hotéis

É perfeitamente possível dormir na Civita di Bagnoregio, e essa é, inclusive, uma das experiências mais mágicas que você pode vivenciar na visita. Quando os turistas de um dia vão embora e a ponte se esvazia, a vila ganha uma atmosfera de silêncio e mistério que é indescritível.

"Civita Secret Lodges", "Libera Mente" são exemplo de dois hoteis em Civita di Banoreggio. Você pode achar outros no booking.com

Civita Secret Lodges e Libera Mente ficam aqui,
fotos de booking.com,


Quando reservar o hotel/pousada, tenha certeza e confirme se a localização da hospedagem é realmente em Civita di  Bagnoregio. Pois se falar que é em Bagnoregio, é do outro lado da ponte, na parte moderna. 


b.3) Igreja de São Donato 

A Igreja de São Donato (Chiesa di San Donato) é o coração pulsante da Civita di Bagnoregio. Ela domina a praça principal (a única praça da cidade, feita de terra batida e pedras) e é um exemplo fascinante de como a arquitetura italiana se sobrepõe através dos séculos.

Antes de ser uma igreja cristã, o local abrigava um templo etrusco. Sobre os alicerces etruscos, os romanos construíram um templo pagão. Somente por volta do século V é que a primeira estrutura cristã foi erguida.

A fachada é simples e elegante, típica do Renascimento italiano, feita com a pedra local (o tufo).

Igreja de São Donato, foto de © Demerzel21 em dreamstime.com


O interior da Igreja possui três naves e é um refúgio de silêncio e frescor. Ao contrário de muitas igrejas italianas carregadas de ouro, San Donato mantém uma rusticidade que combina com a atmosfera da aldeia.

Interior da Igreja de São Donato, foto HistoriacomGosto


A Lenda: Durante uma epidemia de peste em 1499, acredita-se que o crucifixo "falou" com uma mulher, garantindo que a praga terminaria em breve — o que de fato aconteceu.

b.4 - Restaurante "Osteria al forno di Agnese"

Para completar um bom passeio a Civita di Bagnoregio nada melhor que um bom restaurante. Vi boas avaliações desse abaixo "Osteria al forno di Agnese".

Osteria al forno di Agnese, foto da propriedade


5. Como chegar:

A Civita é um destino "sem carros". O acesso é exclusivo para pedestres.

  1. Vindo de Roma ou Florença: Pegue o trem até as cidades de Orvieto ou Viterbo ou venha com carro próprio.

  2. placa de chagada, foto HistoriacomGosto

    Ônibus: De Orvieto, partem os ônibus da linha Cotral que levam até Bagnoregio caso você não esteja com carro.                                                        

  3. A Caminhada Final: Ao chegar em Bagnoregio, você deve se dirigir ou caminhar (pegar um ônibus interno) até o início da ponte de concreto de 300 metros. Existe uma praça com local de apoio aos turistas com mirante e uma descida para as escadas. Prepare o fôlego: a ponte é íngreme, mas a vista é a melhor recompensa do mundo.
    .Apoio ao turista
Ponto de apoio em Bagnoregio, foto historiacomgosto

              .descida para pegar a ponte para Civita

Indicação escadas, foto HistoriacomGosto

Descida do ponto de apoio até local da ponte de entrada,
foto historiacomgosto


                  .Mirante para Civita:

                                 
Vista para Civita a partir do Mirante, foto HistoriacomGosto


Estacionamento: Quem estiver de carro em viagem tem que se preocupar com estacionamento, pois os que vi não eram monitorados e não recomendados para deixar a bagagem desassistida. Nesse ponto de apoio ele não é fechado ou vigiado. Talvez na parte central da localidade de Bagnoregio tenha melhor condição.

Observação: Como estávamos voltando para Roma, depois de uma grande peregrinação na Itália com carro, não quisemos arriscar de deixar o carro com todas as nossas bagagens em estacionamento não vigiado. Ficamos no ponto de apoio com mirante para Civita. Se tivermos uma próxima viagem com menos bagagem, procuraremos dormi lá. 

6. - Referências


- Wikipedia

- Gemini

- Notas de viagem

- fotos: HistoriacomGosto / Dreamstime.com  / Wikipedia


sábado, 6 de dezembro de 2025

A Biblioteca Piccolomini - O Legado dos Papas que Dominaram o Conhecimento

 I. -  A Ascensão de Siena e o Legado dos Piccolomini 


No coração da Toscana medieval, Siena emergiu não como uma mera cidade-estado, mas como um farol , cuja luz ao longo dos séculos moldou tesouros como a Catedral de Siena e a Biblioteca Piccolomini.

Biblioteca Piccolomini, foto de Helmut Achauer, Wikimedia Commons


Essa trajetória, foi tecida por rivalidades geopolíticas, principalmente com Florença, prosperidade mercantil e o florescimento humanista do Renascimento. Isso justificou perfeitamente as decisões arquitetônicas e patronais que definiram o traço da cidade e seu legado intelectual.

Visão geral da Praça com a Torre de Siena, foto de © Santiago Rodríguez Fontoba dreamstime.com


Para entender os Piccolomini – essa dinastia de eruditos e papas que transformou Siena em um hub de saber clássico – é essencial traçar as raízes dessa cidade, desde suas origens comunais até o apogeu renascentista, onde a biblioteca surge como o ápice de um projeto familiar e cívico.


As Raízes Medievais: De Comuna a Potência Comercial (Séculos XI-XII)


Siena, fundada como colônia romana no século I a.C. (como Saena Julia), hibernou na Alta Idade Média sob domínio lombardo e franco, mas despertou com vigor no século XI, impulsionada pela rota de peregrinação via Francigena – a estrada que ligava Roma ao norte da Europa.

Por volta de 1125, Siena se emancipou como comuna independente, rompendo os laços feudais com o Bispo de Volterra e os Aldobrandeschi, senhores locais. Essa liberdade política foi o catalisador para uma economia explosiva: o comércio de lã (lanifício), a extração de mármore das pedreiras de Rapolano e, acima de tudo, o florescimento dos bancos – pioneiros como a família Bonsignori estabeleceram redes financeiras que rivalizavam com as de Florença e Gênova.

Catedral de Siena, foto HistoriacomGosto

Essa ascensão justificou a construção da Catedral de Siena em 1179, não como mero ato de devoção, mas como uma declaração estratégica de poder. No século XII, Siena enfrentava uma "guerra das catedrais" italiana: Pisa, com seu Duomo pisanorromânico iniciado em 1064, e Florença, emergente sob os Médici, usavam templos grandiosos para afirmar hegemonia regional.



O Auge Republicano e as Sombras da Peste (Séculos XIII-XIV)

No entanto, a Peste Negra de 1348 devastou Siena, reduzindo sua população de 50.000 para 15.000 em meses – uma catástrofe que interrompeu o ambicioso "Duomo Novo" (projetado em 1339 para envolver a cidade inteira, mas abandonado como ruínas). A recuperação veio no século XIV tardio, via alianças com o Papado de Avignon e o comércio de alumbre (usado em tinturaria). Essa resiliência pavimentou o caminho para o século XV, quando Siena transitou de república para senhorias familiares, com oligarcas como os Salimbeni e, emergindo das cinzas, os Piccolomini.

Peste Negra, iluminura de pessoas enterrando familiares,
"Crônicas de Gilles Li Muisis" (Gilles Li Muisis, 1272–1352) foto wikimedia

O Renascimento Humanista: Os Piccolomini e o Triunfo do Saber (Século XV)


Entrando no Quattrocento, Siena se reinventou como enclave humanista em uma Itália fragmentada pela Guerra dos Cem Anos e as invasões francesas. A cidade, agora com cerca de 30.000 habitantes, beneficiou-se da proximidade com Roma sob papas renascentistas como Nicolau V (1447-1455), que promovia a coleta de manuscritos clássicos.

Foi nesse contexto que os Piccolomini – uma família de origem corsicana, mas enraizada em Siena desde o século XII como mercadores de tecidos – ascenderam de nobres menores a potências papais.

Enea Silvio Bartolomei (1405-1464), nascido em uma Siena ainda se recuperando da peste, personifica essa evolução: humanista errante, diplomata e poeta (autor de De curialium miseriis, 1444), ele se tornou Papa Pio II em 1458, o primeiro papa renascentista a priorizar a erudição sobre a teocracia estrita.

Papa Pio II, Eneas Piccolomini, foto wikimedia


A Biblioteca Piccolomini, iniciada em 1495 por seu sobrinho Cardeal Francesco Piccolomini (futuro Papa Pio III), justifica-se como o clímax dessa trajetória.

Em uma era de expansão territorial (Siena controlava o Monte Amiata e alianças com o Reino de Nápoles), a biblioteca não era luxo, mas estratégia: Pio II havia fundado a Universidade de Siena em 1240 (revitalizada no século XV), e a família via no saber clássico uma ferramenta para legitimar seu poder.

Essa evolução de Siena – de comuna combativa a berço humanista – não só justificou esses monumentos, mas os tornou interconectados: a catedral como base espiritual e cívica, a biblioteca como pináculo erudito.

Para os Piccolomini, era mais que arquitetura; era a perpetuação de uma linhagem que, de mercadores a papas, encapsulava o espírito sienense de inovação e preservação.

II. - O Conceito da Biblioteca Piccolomini


Financiada por legados papais e receitas de indulgências, a estrutura octogonal – projetada por Bernardo Rossellino em estilo renascentista palladiano – abrigou 200 códices iluminados, preservando textos de Cícero, Virgílio e liturgia católica contra as chamas da Inquisição iminente. 

Biblioteca Piccolomini, foto HistoriacomGosto


Os afrescos de Pinturicchio (1502-1508), retratando a vida de Pio II, transformam a biblioteca em um speculum principis – espelho para príncipes, um conceito humanista para educação moral e política.

Assim, enquanto a catedral do século XII erguia Siena contra rivais medievais, a biblioteca do século XV a elevava ao panteão intelectual europeu, com os Piccolomini como patronos que fundiam fé, comércio e filologia em um legado duradouro.


Localização e Integração à Catedral de Siena

A biblioteca se conecta diretament ao Duomo de Siena, um exemplo de arquitetura gótica-italiana, ela foi adjacente ao coro da igreja para facilitar o acesso dos padres e bispos na preparação das homilias e no estudo das escrituras. A biblioteca foi inaugurada em 1495, mas concluída nos afrescos por volta de 1509.


III. - Arquitetura e Design Interno


Estrutura Física: O layout é octogonal com três naves, inspirado em bibliotecas antigas como a de Alexandria ou a Laurentiana em Florença (projetada por Michelangelo). Os materiais utilizados são mármore sienense, tetos abobadados e a escadaria externa de Giacomo Cozzarelli.

O teto da Biblioteca: Humanismo Cósmico

O teto representa o ideal de Pio II (Enea Silvio Piccolomini), um papa fascinado por astronomia (ele escreveu sobre eclipses em seus Commentarii). As constelações simbolizam a ordem divina e a predestinação: os Piccolomini como "estrelas guias" da Igreja, ligando o saber clássico (Ptolomeu, Aristóteles) à teologia cristã. Argumento convincente: Em uma era pré-Copérnico, isso reforçava o geocentrismo papal, com o céu como metáfora para o controle familiar sobre o conhecimento – estrelas fixas, como o acervo de códices "acorrentados".


Teto da Biblioteca Piccolomini, foto HistoriacomGosto


Iluminação e Espaço: É interessante como a luz natural das janelas altas realça os afrescos, criando um ambiente de contemplação erudita – um jargão renascentista para "humanismo espacial".


IV. - Os Afrescos de Pinturicchio: A Obra-Prima Artística


O Artista e Seu Estilo: O artista responsável pela pintura da biblioteca foi Bernardino di Betto (Pinturicchio), pupilo de Perugino, onde utilizou seu maneirismo precoce: cores vibrantes, figuras idealizadas e narrativas encenadas como em um palco teatral.

Afrescos da Livraria, foto Opera Duomo di Siena


Ciclo de Afrescos sobre Pio II: A decoração contou com 10 cenas principais, focados em Pio II, como a eleição papal em 1458 ou a canonização de Catarina de Siena, baseadas em crônicas humanistas. 

Exemplos dos Afrescos

a) Entrega do chapéu cardinalicio: O afresco na imagem é a sexta cena do ciclo e representa Eneias Sílvio Piccolomini, já como Bispo de Siena, recebendo o chapéu cardinalício (barrete vermelho) do Papa Calisto III em 1456, em Roma.

Entrega do chapeu cardinalicio, Pinturrichio,
foto HistoriacomGosto

b) Pio II chega a Ancona para apressar a cruzada:

A pintura retrata o Papa Pio II (nascido Enea Silvio Piccolomini) chegando a Ancona, Itália, em julho de 1464, com o objetivo de liderar pessoalmente uma cruzada contra o Império Otomano. Ele esperava inspirar os exércitos cristãos que se reuniam na cidade, mas morreu de febre apenas um mês depois, em 14 de agosto de 1464, antes que a frota veneziana chegasse e a cruzada pudesse começar. 


Pio II chega a Ancona para apressar a Cruzada,
foto Masterdrucke

c) Eneias Silvius Piccolomini, então bispo de Siena, apresenta o imperador Frederico III à sua noiva, Eleanor de Portugal

A pintura retrata o encontro que ocorreu em 24 de fevereiro de 1452, perto da Porta Camollia em Siena, onde Enea Silvio Piccolomini, então Bispo de Siena, apresentou a noiva Eleonora de Portugal ao Imperador Frederico III do Sacro Império Romano-Germânico. O casamento fazia parte da política matrimonial da dinastia de Avis e visava fortalecer as relações entre os reinos. A inscrição em latim abaixo da imagem traduz-se como "Eneas mostra Leonor, sua noiva, ao Imperador Frederico III, e elogia a menina e os reis de Portugal".


"O bispo de Siena, apresenta o imperador Frederico III
à sua noiva, Eleanor de Portugal", Biblioteca Piccolomini


A decoração além da parte explícita do Papa Pio II, também traz retratos da família Piccolomini, revelando propaganda familiar disfarçada de hagiografia.

Brasões de Armas: A imagem destaca vários brasões (escutos heráldicos) da família Piccolomini. O brasão principal, presente nas janelas de vitral e em uma grande guirlanda central, apresenta uma cruz azul carregada com cinco crescentes dourados.

Brasões de Armas, foto HistoriacomGosto



Escultura - "As Três Graças" (italiano: Le Tre Grazie).

Tipo: Cópia romana antiga de um original helenístico grego que data do século III a.C. ao século II a.C..
 
Feita em mármore, a escultura pertenceu ao Cardeal Francesco Todeschini Piccolomini (mais tarde Papa Pio III), que mandou construir a biblioteca para homenagear seu tio, o Papa Pio II. A estátua tem uma história conturbada; ela foi removida da biblioteca várias vezes, inclusive sob o Papa Pio IX no século XIX, por ser considerada indecente em um local sagrado, mas foi finalmente devolvida à sua localização original em 1974.

As três graças, foto HistoriacomGosto


V. - A Coleção de Manuscritos e Seu Legado Cultural


- Conteúdo da Biblioteca: Tem destaques como códices iluminados do século XV (Bíblia de Siena, obras de Cícero e textos litúrgicos), com mais de 200 volumes encadernados em couro com brasões.

Exemplo: Antifonário ou Gradual do século XV

O manuscrito contém canto gregoriano com notação quadrada em pautas de quatro linhas vermelhas (tetragrama). O texto em latim parcial pode ser lido como: "tollam alleluia" e "Dominus noster stans in medio discipulorum suorum dixit nobis alleluia". Este é parte do cântico (antífona) para a Oitava de Páscoa, que começa com as palavras "Surgens Iesus" (Jesus Ressuscitado).


Antifonário, foto HistoriacomGosto

A página apresenta uma grande inicial "S" decorada e iluminada com cores vibrantes (azul, dourado, rosa, verde), típica da arte de manuscritos italianos do século XV.

- Importância Humanista: Teve um grande papel na disseminação do conhecimento durante o Renascimento, quando Siena era um hub de copistas e tradutores, preservando textos gregos e latinos contra a Inquisição.

- Evolução ao Longo dos Séculos: Outras aquisições posteriores foram realizadas e teve um importante  papel na formação da identidade cultural italiana, com influências em bibliotecas como a Vaticana.

VI. Curiosidades e rumores sobre aspectos da Biblioteca


a) Manuscritos proibidos e escondidos

A Contra-Reforma (1545-1648), impulsionada pelo Concílio de Trento, visava combater o protestantismo com censura rigorosa. O Índice de Livros Proibidos (primeira edição em 1559, sob Papa Paulo IV) baniu obras "heréticas", incluindo textos humanistas que misturavam paganismo clássico com cristianismo – exatamente o ethos de Pio II, que colecionava Cícero e Platão. 

Exemplo típico de manuscrito iluminado, biblioteca piccolomini,
 foto Opera di Siena



Siena, anexada a Florença em 1555 e sob influência papal, era um ponto quente: mosteiros foram revistados, e bibliotecas eclesiais como a Vaticana esconderam volumes para proteção.

Os Rumores Específicos

Circulam lendas de que os Piccolomini ocultaram manuscritos "perigosos" durante as inspeções inquisitoriais (1570s-1580s), possivelmente em câmaras secretas sob o piso da biblioteca ou transferidos para Roma via redes familiares. Candidatos plausíveis incluem:

- Textos Pagãos Gregos: Cópias integrais de Homero ou Epicuro (sem adaptações cristãs), herdadas de Pio II via embaixadas bizantinas (pós-Queda de Constantinopla, 1453). 

- Obras Humanistas Críticas: Cartas de Erasmo de Roterdã (crítico da Igreja, indexado em 1559) ou tratados de Pico della Mirandola (Disputa sobre a Cábala, 1486).

- Tratados Científicos Precoces: Fragmentos de Copérnico ou observações astrológicas de Pio II (ele registrou eclipses em Commentarii, 1462-1464), que desafiavam o geocentrismo católico antes de Galileu (1633).

Não há documentos diretos que comprovem qualquer desses fatos, mas rumores surgem de relatos anedóticos: Vasari menciona "tesouros escondidos" em bibliotecas papais, e o fato de que o acervo Piccolomini sobreviveu intacto (diferente de perdas em Florença) alimenta especulações. 


b) Visita de  Figuras Notáveis: 

Johann Wolfgang von Goethe: O Encantamento do "Teatro da História" (1786-1787)

Johann Wolfgang von Goethe, pintura a óleo
por 
Gerhard von Kügelgen, 1808/1809.


O grande escritor alemão, em plena crise criativa após Fausto, embarcou no Grand Tour pela Itália em 1786, chegando a Siena em outubro. Aos 37 anos, Goethe era um humanista clássico, fascinado pelo Renascimento, e visitou a biblioteca anexa à Catedral de Siena como parte de sua busca por inspiração artística. 

Goethe ficou impressionado pela vivacidade das cenas da vida de Pio II, descrevendo a biblioteca como um "espaço onde a história se encena como em um teatro". Ele escreveu: "Os afrescos de Pinturicchio na Biblioteca Piccolomini são uma sequência admirável de eventos da vida do Papa Pio II; as figuras são graciosas, as paisagens encantadoras, e o todo forma um ciclo narrativo que cativa o espírito. É como se o passado renascentista sussurrasse segredos sob o teto estrelado"


VII. - Referências


Pesquisa e texto base - Wikipedia / Chat Gpt

Fotos: HistoriacomGosto / Wikipedia


https://whichmuseum.com/museum/piccolomini-library-siena-38919



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