sexta-feira, 8 de junho de 2018

Música de Minas Gerais - João Bosco

I. João Bosco 


a) - Pelo próprio

"Amamentado pelo meu violão, moro na estrada. Sem saber quem sou e nem porque vim, eu vou. Da primeira vez que nasci, lá pelo ano de 1946, trouxe comigo uma grande alegria para o meu pai que até aquele momento contabilizava o feito de cinco moças e mais os olhares interrogativos e desconfiados da colônia árabe pontenovense. Como primeiro filho homem ajudei em sua redenção.
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 foto preto e branco de João Bosco em um show canando em dupla com uma moça, provavelmente Elis Regina
Cresci em meio aos matagais, trilhas, mata-burro, veredas e grutas; descalço, tive os pés regulados para andar por esses caminhos ao som de pios de uma fauna alegre e ingênua; matuto, vivia contando estrelas, ouvindo carrilhões e sonhava muito. 
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Passei pela terra de Aleijadinho e o meu coração que até então era vadio, ficou barroco. Subi e desci ladeiras. Descobri que na vida existem mais hipóteses que teoremas. Supor é melhor que demonstrar e na dúvida mora a vontade de continuar.
...
Quando nasci da segunda vez, o meu coração bateu aflito. Mas logo que vi o mar, serenei pois tudo que havia existido voltou subitamente e volta sempre quando estou caminhando no calçadão que vai do Leblon ao Arpoador. Aí, o que foi e o que poderia vir a a ser andam comigo, incluindo as sementes, o pão de queijo e a goiabada cascão.
...

Eu sei que esse deveria ser um retrato pintado ou desenhado, falado ou escrito do autor pelo próprio autor, mas quando se trata de revelar-me, prefiro assim, meio de lado (do jeito que a gente anda no samba), no lugar de frente ou verso. O silêncio, a liberdade e a terceira margem do rio foram inventados em Minas Gerais."


b) - pela Wikipedia

"Filho de pai libanês , João Bosco começou a tocar violão aos doze anos, incentivado por uma família repleta de músicos. Suas primeiras influências foram Ângela Maria, Cauby Peixoto, Elvis Presley e Little Richard, integrou a banda X-Gare .

Alguns anos depois, iniciou na Escola de Minas em Ouro Preto cursando Engenharia Civil. Apesar de não deixar de lado os estudos, dedicava-se sobremaneira à carreira musical, influenciado principalmente por gêneros como jazz e bossa nova e pelo tropicalismo. Foi em Ouro Preto, em 1967, na casa do pintor Carlos Scliar, que conheceu Vinícius de Moraes, com o qual compôs as seguintes canções: rosa-dos-ventos, Samba do Pouso e O mergulhador - dentre outras. 


 foto colorida de João Bosco sentado em casa tocando violão
Em 1970 conheceu aquele que viria a ser o mais frequente parceiro, com quem compôs mais de uma centena de canções: Aldir Blanc, O mestre sala dos mares, O bêbado e a equilibrista, Bala com bala, Kid cavaquinho, Caça à raposa, Falso brilhante, O rancho da goiabada, De frente pro crime, Fantasia, Bodas de prata, Latin Lover, O ronco da cuíca, Corsário, dentre muitas outras. 


A primeira gravação saiu no disco de bolso do jornal O Pasquim: Agnus Sei (1972). No ano seguinte, selou contrato com a gravadora RCA, lançando o primeiro disco, que levava apenas seu nome. 

Em 1972 conheceu Elis Regina, que gravou uma parceria sua com Blanc: Bala com Bala; a carreira deslanchou quando da interpretação da cantora para o bolero Dois pra lá, dois pra cá."



c) Por um iniciante de Minas


João Bosco marcou meu período de início profissional em Minas Gerais. Descobria uma nova vida na área de engenharia e computação, e uma nova cultura de vida morando longe de casa.

Foi com os meus amigos de república, alguns de Ponte Nova, que conheci João Bosco, Milton Nascimento e o Clube da Esquina. Com as músicas desses artistas sempre animando os festivais de inverno de Ouro Preto, os bares de BH, aprendi a falar "Trem" e "Sô". Boas lembranças.

A música de João Bosco para mim é uma música de boteco, de roda de amigos, e uma música de alegria.


II. - Três músicas de João Bosco


a) Corsário (Disco: Essa é sua vida -1981) 


Uma rica letra com uma difícil composição, fala sobre a distância entre os enamorados e o que tudo faria para encontrá-la. 



Música: João Bosco         Letra: Aldir Blanc

Meu coração tropical
está coberto de neve, mas
Ferve em seu cofre gelado E a voz vibra e a mão escreve
mar Bendita lâmina grave
que fere a parede e traz
As febres loucas e breves Que mancham o silêncio
e o cais
Roseirais,
Nova Granada de Espanha Por você, eu, teu corsário preso
Vou partir
a geleira azul da solidão
E buscar a mão do mar
Me arrastar até o mar, 
procurar o mar 

Mesmo que eu mande em garrafas 
Mensagens por todo o mar 
Meu coração tropical 
partirá esse gelo e irá 

Com as garrafas de náufragos 
E as rosas partindo o ar 
Nova Granada de Espanha 
E as rosas partindo o ar


b) O Bêbado e o Equilibrista (Disco: Linha de Passe - 1979)




Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
 me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona de um bordel
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco
Louco, o bêbado com chapéu-côco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo-de-foguete
Chora a nossa pátria, mãe gentil
Choram Marias e Clarices no solo do Brasil
Mas sei, que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, 
a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, 
a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
 tem que continuar




Análise de Sergio Soeiro, parte inicial,  no site https://analisedeletras.com/elis-regina/o-bebado-e-a-equilibrista/

"Gravada em 1979, esta música de João Bosco (melodia) e Aldir Blanc (letra), retrata uma época marcante da história do Brasil e tornou-se um hino à anistia no período final da ditadura militar iniciada no golpe militar de 1964.

Ao fim da década de 1970 a ditadura brasileira sofria grandes reveses. A pressão pela abertura democrática vinha de todos os lados, mas o regime se mantinha duro e firme. As incertezas eram imensas e quem ousava levantar a voz contra o regime corria o risco de pagar, até com a própria vida, pelo ato.

Assim, este texto é um discurso de denúncia e esperança: O “Bêbado” é a classe artística, representada pelo seu símbolo-maior, Carlitos, personagem de Charles Chaplin, com toda sua aura de liberdade e utopia."


c) Papel Machê (Disco: Gagabirô - 1984)


Inspiração


Em princípio de 2003, João Bosco recebeu Capinam em sua casa. Quando este adentrou em sua sala, ficou impressionado com  uma série de brinquedos de papel machê feitos por sua esposa. Retornando para a Bahia Capinam escreveu uma carta mencionando  a visita e com versos que eram a letra dessa música.
É uma música leve e jovial.


Letra: Capinam, Música: João Bosco

Cores do mar, festa do sol
Vida é fazer
Todo o sonho brilhar
Ser feliz

Não vai desbotar
Lilás cor do mar
Seda cor de batom
Arco-íris crepom
Nada vai desbotar

Brinquedo de Papel Machê...
No teu colo dormir
E depois acordar
Sendo o seu colorido
Brinquedo de Papel Machê...(2x)

Ai Ai Ai Ai Ai Ai!!
Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê
Lon Lon Lon Lon Ah!
Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê
Lon Lon Lon Lon Ah!...
Dormir no teu colo
É tornar a nascer
Violeta e azul
Outro ser
Luz do querer...


 III. - Referências


João Bosco -site oficial

João Bosco - Wikipédia

Youtube - Corsário / O bêbado e o equilibrista / Papel Machê










segunda-feira, 4 de junho de 2018

Chichibio Cuoco - Um conto de Boccaccio em "Decameron"

I. - Giovanni Boccaccio


Giovanni Boccaccio, nasceu, não se sabe ao certo se em  Florença ou Certaldo, em  16 de junho de 1313 e faleceu em Certaldo, 21 de dezembro de 1375. Ele  foi um poeta e crítico literário italiano, especializado na obra de Dante Alighieri.


 pintura de Boccaccio de corpo inteiro  Filho de um mercador, Boccaccio não se dedicou ao comércio como era o desejo de seu pai, preferindo cultivar o talento literário que se manifestou desde muito cedo. Foi um importante humanista, autor de um número notável de obras, incluindo Decameron, o poema alegórico Visão Amorosa (Amorosa visione) e De claris mulieribus, uma série de biografias de mulheres ilustres.  

O "Decameron" fez de Boccaccio o primeiro grande realista da literatura universal.

Ao ler "A Comédia", de Dante Alighieri, Boccaccio ficou tão fascinado que a renomeou de "A Divina Comédia", título com que a obra seria imortalizada. 

Considerado pelos seus contemporâneos florentinos uma autoridade sobre Dante, o governo da cidade convidou-o, em 1373, a fazer uma leitura pública da Divina Comédia. Apesar de ter feito várias palestras foi acometido de uma doença que o impedia de terminar o projeto, mas o texto com os seus comentários ficou para a posteridade. Encontra-se sepultado na Igreja de São Jacó e Filipe, em Certaldo, na Toscana, Itália. (fonte: Wikipedia)

Boccaccio, Dante e Petrarca são conhecidos como "As três coroas de Florença" e são os protagonistas da literatura italiana. 

Observação -  Vejam os períodos em que eles viveram: Dante (Firenze 1265 – Ravenna 1321) Petrarca (Arezzo 1304 – Padova 1374) Boccaccio (Firenze 1313 – Certaldo 1375)


II. - O Decameron


Decameron é uma coleção de cem novelas escritas por Giovanni Boccaccio entre 1348 e 1353.

foto da capa do livro Decameron    O livro é estruturado como uma história que contêm 100 contos relatados por um grupo de sete moças e três rapazes que se abrigam em uma vila isolada de Florença para fugir da peste negra que afligia a cidade. Boccaccio provavelmente iniciou Decameron após a epidemia de 1348 e o concluiu em 1353. Os vários contos de  Decameron vão do trágico ao erótico; contos de sagacidade, piadas e lições de vida. Além do seu valor literário e ampla influência, ele fornece um documento da vida na época. Escrito no vernáculo da língua florentina, é considerado uma obra-prima da prosa clássica italiana precoce.

A obra é considerada um marco literário na ruptura entre a moral medieval, em que se valorizava o amor espiritual, e o início do realismo, iniciando o registro dos valores terrenos, que veio redundar no humanismo;  Foi escrito em dialeto toscano

III. - O Conto "Chichibio Cuoco"


"Chichibio Cuoco" : Um conto de Giovanni Boccaccio em Decameron


Currado Gianfiliazzi, como cada um de vocês deve ter visto e ouvido, na nossa cidade tem sido sempre um notável cidadão, liberal e magnífico, leva uma vida cavalheiresca  mantendo continuamente em cachorros e pássaros a sua diversão, não recordando agora seus feitos mais importantes. 

Um deles aconteceu quando com seu falcão caçou um ganso perto de Peretola, e encontrando-o gordo e jovem, o enviou a um de seus bons cozinheiros que se chamava Chichibio e era veneziano. E lhe mandou dizendo que lhe assasse e cozinhasse bem para o jantar. 

 gravura contendo o conzinheiro fanfarrão Chichibio assando o ganso enquanto uma jovem parece lhe pedir um pedaço   Chichibio que, parecia ser um fanfarrão, preparou o ganso, dedicou-lhe sua atenção e, com presteza, começou a cozinhá-lo. Acontece que quando o cozido já exalava uma cheiro grande e forte, uma moça da região chamada Brunetta, da qual Chichibio estava fortemente apaixonado, adentrou na cozinha, e sentindo o odor do ganso e vendo-o implorou fortemente a Chichibio que lhe desse uma coxa. 

Chichibio lhe respondeu cantando e disse: “Você não me entende Dona Brunetta”, você não me entende”. Brunetta se sentindo chateada lhe respondeu: “Pela fé em Deus, se você não me der, tu não terás nunca de mim nada que te agrade”, e logo se seguiu muitas palavras. Ao final Chichibio, para não angustiar a bela moça retirou uma das coxas do ganso e lhe deu. 

figura de um serviçal levando o ganso assado em um prato para o patrão   Estando então diante de Currado e alguns hóspedes serviu-lhes o ganso sem uma coxa, e Currado espantando-se chamou a Chichibio, e perguntou-lhe o que tinha acontecido com a outra coxa do ganso Então, o veneziano fanfarrão prontamente respondeu: “Meu Senhor, o ganso não tinha se não uma coxa e uma perna”.

Currado então chateado disse: “Como pode que não tenha senão uma coxa e uma perna ?” Eu não já vi muitos gansos além deste ?”

Chichibio continuou: “Ele é, Senhor, como eu vos digo; e quando lhe aprouver eu lhe mostrarei ao vivo”. Currado, por atenção aos seus hóspedes  não quis continuar  o assunto, mas disse: Então você mostrará ao vivo, coisa que eu nunca vi e nem ouvi, quero vê-lo amanhã de manhã e estarei satisfeito; Mas eu te juro sobre o corpo de Cristo que, se  outra coisa acontecer, eu te farei queimar, que tu com tua mentira nunca se esquecerá, enquanto viveres, do meu nome.

 gravura do Patrão e Chichibio montados a cavalo e olhando para vários gansos que estão apoiados em uma perna só  Terminando então as palavras por aquela noite, na manhã seguinte, quando o dia amanheceu, Currado, a quem a raiva não o deixara dormir, e ainda aborrecido, levantou e ordenou que os cavalos fossem preparados. Ordenou que  Chichibio montasse um cavalo sem raça  e partisse em direção a um riacho, na borda do qual ele sempre costumava ver alguns gansos, e disse: “Logo vamos ver quem mentiu ontem à noite, ou tu ou eu.”

Chichibio, vendo que ainda durava a ira de Currado e que lhe era necessário manter a sua mentira, não sabendo como fazer isso, na frente de Currado, morrendo de medo, de bom grado teria fugido se pudesse. Não podendo, ele se preocupava e o que via, ele pensava que eram gansos que estavam em seus dois pés. 

Mas já perto do riacho, ele chegou a ver antes de todos cerca de doze gansos, as quais se apoiavam todas em um pé, como elas fazem quando dormem; Para o que ele, prestamente mostrando para Currado disse: “Muito bem você pode ver, mestre, que o que eu te disse ontem à noite é verdade, as gansos não tem senão uma coxa e um pé, se você olhar para aquelas que estão acolá“. 

Currado vendo a situação exclamou: “Espera que eu te mostrarei que elas tem duas pernas”. E, aproximando-se daqueles mais próximos gritou “Ho, ho!”. Baixando a outra perna, todos depois de alguns passos começaram a fugir; Onde Currado dirigiu-se a Chichibio e disse: “O que você acha glutão? Dizes que elas não tem duas pernas?”.


 foto de um ganso apoiado em uma perna só.
foto por Avi Drori


Chichibio quase atordoado, não sabendo direito o que fazer, respondeu: “Mestre, sim, mas vós não gritastes “Ho, ho” àquele de ontem à noite”; “Porque se vós tivesses  gritado ele teria baixado a outra coxa e o outro pé como esses fizeram”. 

Currado  gostou tanto da resposta, que toda a sua ira se converteu em riso e alegria, e disse: “Chichibio, tu tens razão: Eu deveria ter feito isso”. 

Então, com sua pronta e agradável resposta, Chichibio acabou com sua má sorte e fez as pazes com seu senhor. 


IV. - Referências


Wikipedia - Boccaccio / Decameron

Chichibio Cuoco - Conto do Decameron - IV Novela da VI jornada.




sábado, 26 de maio de 2018

Francesco Petrarca - um protagonista do humanismo italiano

1. - Francesco Petrarca



quadro com retrato de PetrarcaFrancesco Petrarca (Arezzo, 20 de julho de 1304 — Arquà, 19 de julho de 1374) foi um intelectual, poeta e humanista italiano, famoso, principalmente, devido à sua coleção de romances. Ele aperfeiçoou o soneto, tipo de poema composto de 14 versos. 

Foi baseado no trabalho de Petrarca (e também de Dante e Boccaccio) que Pietro Bembo, no século XVI, criou o modelo para o italiano moderno, mais tarde adotado pela Accademia della Crusca.

Pesquisador e filólogo, divulgador e escritor, é tido como o "pai do Humanismo". Mas esse grande latinista deve sua fama principalmente a seus poemas, redigidos em língua italiana.
Grande parte da obra de Petrarca foram sonetos de amor dedicados a sua musa Laura. Um amor não resolvido.

Dante (1265~1321), Petrarca (1304~1374) e Boccaccio (1313 ~1375) são considerados os personagens principais da literatura italiana e são comumente referenciados como "as  três coroas de Florença". (fonte:wikipedia)


2. Caracterísiticas de Petrarca


Petrarca viveu sua primeira infância na vila de Incisa , perto de Florença. Posteriormente ele passou uma grande parte de sua vida em Avignon e nas proximidades de Carpentras , onde sua família se mudou para seguir o Papa Clemente V. Este havia se mudado para lá em 1309 para começar o Papado de Avignon. Petrarca estudou direito na Universidade de Montpellier (1316–1320) e Bolonha (1320–1326) com um amigo e colega de escola que manteve ao longo da vida chamado Guido Sette.

quadro de um homem e uma mulher conversando no campo
Como seu pai estava na profissão de advocacia, ele insistiu que Petrarca e seu irmão estudassem a lei também. Petrarca, no entanto, estava principalmente interessado em escrever e estudar a literatura latina. Esses anos de estudo da lei foram sete anos desperdiçados.

Com seu primeiro trabalho em larga escala, "A África" , um épico em latim sobre o grande general romano Cipião Africano, Petrarca emergiu como uma celebridade européia. Em 8 de abril de 1341, ele se tornou o segundo poeta laureado desde a antiguidade e foi coroado pelo senador Giordano Orsini romano e Orso dell'Anguillara nos terrenos sagrados do Capitólio de Roma .

Diplomata, erudito, humanista e poeta Francesco Petrarca viveu em um período transitório. Foi um dos últimos homens da Idade Média e um dos primeiros indivíduos a quem se pode chamar de precursor do humanismo. Por meio de seu lirismo amoroso, representado pela figura de Laura, uma mulher real de sua época, Petrarca destaca a figura humana não como uma mera “criatura”, mas como um verdadeiro indivíduo que possui suas próprias vontades e que imprime no universo em que reside a sua própria psicologia. (fonte:wikipedia)



Alguns tópicos sobre o seu estilo;

♦  Um novo estilo: a partir deste conceito que aparece na Divina Comédia, Petrarca cria um novo tipo de poema. A insuperada forma do soneto italiano… representante da “modernidade” na poesia de cunho amoroso.
♦ A poesia de Petrarca era focada no amor e refletia um sentimento melancólico e individualista
Petrarca foi a base para Camões e outros que vieram depois. 
(fonte: Gaia Cultural, Post publicado por: Nathaly Felipe Ferreira Alves)


3. - Obras de Petrarca -  Canzoniere


Cancionero (Canzoniere en italiano) é o nome com que popularmente se conhece a obra lírica, escrita em toscano, de Francesco Petrarca, Fragmentos de cosas en vulgarAqui entende-se  vulgar como a concepção moderna de romance, composta no século XIV, e publicada pela primeira vez em  Veneza em 1470 pelo editor Vindelino da Spira.

capa da obra Canzoniere de Petrarca com um homem e uma mulher sentados conversando
Embora a maior parte da produção de Petrarca fosse em latim, o Canzoniere foi escrito no vernáculo , uma linguagem de comércio, apesar da visão de Petrarca de que o italiano era menos adequado para a expressão.  Dos seus 366 poemas, a grande maioria está em forma de soneto (317), embora a seqüência contenha um número de canzoni (29), e outras formas

Seu tema central é o amor do poeta por Laura , uma mulher que Petrarca supostamente conheceu em 6 de abril de 1327, na Igreja de Santa Clara em Avignon. Embora contestada, a inscrição em sua cópia de Virgílio registra essa informação. A meticulosa datação de seus manuscritos permitiu que os estudiosos deduzissem que os poemas foram escritos durante um período de quarenta anos, com os primeiros datados de 1327, e os últimos por volta de 1368. A transcrição e ordenação da própria sequência continuou até 1374, o ano da morte do poeta. 

As duas seções da seqüência que são divididas pela morte de Laura foram tradicionalmente rotuladas "In vita" (In life ') e' In morte '(In death) respectivamente, embora Petrarca não tenha feito tal distinção. Seu trabalho se tornaria o que Spiller chama de "a maior influência sobre a poesia do amor do Renascimento".  

foto do livro de poemas aberto mostrando as páginas com poemas e ricamente ilustrado nas bordas e ao redor


No Canzonieri pode se achar características particulares, requeridas por qualquer outro romance posterior a que se aplique o adjetivo "petrarquista".  

  • A obra embora composta de fragmentos é e deve ser unitária 
  • O elo argumental do Canzonieri é a vivência amorosa que se narra na primeira pessoa.
  • Ele está dedicado a uma só dama. Tal que Petrarca substituiu em sua publicação final um poema, porque podia induzir ao leitor a pensar que ele havia amado mais de uma Laura.   
  • Canzonieri  tem uma sequência narrativa que conduz  o leitor através da história do sentimento amoroso do poeta. Isto leva a que os poemas devem se apresentar como se tivessem sido escritos cronologicamente na ordem que aparecem na obra.  
  • O tema é o amor mas não apenas isto. O Canzonieri  se intermeia com poemas de amizade, políticos, morais, patrióticos ou anedóticos que  servem para acentuar a progressão narrativa que se falou no ponto anterior. 
  • O  Canzonieri  é polimétrico, de modo que as formas métricas  correspondem com o estado anímico e a mensagem que o poeta quer transmitir em cada momento.  

(fonte wikipedia - Canzonieri em Inglês e Espanhol)

4. - Dois  belos poemas do "Canzonieri" - Soneto XXII e Soneto III


Soneto XXII


S' amor non è, che dunque è quel ch' io sento? 
Ma s'egli è amor, per Dio, che cosa e quale? 
Se buona, ond è effetto aspro mortale? 
Se ria, ond' è si dolce ogni tormento? 
Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que coisa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?

S'a mia voglia arado, ond' è 'I pianto e 'I lamento? 
S'a mal mio grado, il lamentar che vale? 
O viva morte, o dilettoso male, 
Come puoi tanto in me s'io nol consento? 
Se eu ardo por querer por que o lamento ?
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.

E s'io 'I consento, a gran torto mi doglio. 
Fra sì contrari venti, in frale barca 
Mi trivo in alto mar, senza governo, 
E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.
Sí lieve di saber, d'error sí carca, 
Ch' i i' medesmo non so quel ch' io mi voglio, 
E tremo a mèzza state, ardemdo il verno

É tão grave de error, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno


Sonetto nº 3 - Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente



Era il giorno ch’al sol si scoloraro
per la pietà del suo factore i rai,
quando i’ fui preso, et non me ne guardai,
ché i be’ vostr’occhi, donna, mi legaro.
Era o dia em que o sol escurecia
Os raios por piedade ao seu Fator,
Quando eu me vi submisso ao vivo ardor
De teu formoso olhar que me prendia.

Tempo non mi parea da far riparo
contra colpi d’Amor: però m’andai
secur, senza sospetto; onde i miei guai
nel commune dolor s’incominciaro.
Defender-me do golpe eu não queria;
Desabrigado achou-me então Amor;
Por isso acrescentou-se a minha dor
À dor universal que assaz crescia.

Trovommi Amor del tutto disarmato
et aperta la via per gli occhi al core,
che di lagrime son fatti uscio et varco:

Achou-me Amor de todo desarmado,
Pelos olhos, ao peito aberta a estrada,
Olhos que se fizeram mar de pranto.

però al mio parer non li fu honore
ferir me de saetta in quello stato,
a voi armata non mostrar pur l’arco.
Porém a sua ação não o honra tanto:
Ferir-me, sendo inerme o meu estado,
Não te visar quando eras tão armada.


5. - Referências


Petrarca e Il Canzoniere - Wikipedia

Gaia Cultural - https://movimentoculturalgaia.wordpress.com/2009/09/23/petrarca-e-seu-lirismo/ - Post publicado por: Nathaly Felipe Ferreira Alves

https://www.comunidadeculturaearte.com/os-sonetos-humanos-de-petrarca/

https://blogdocastorp.blogspot.com.br/2017/04/francesco-petrarca-dois-sonetos.html



quarta-feira, 23 de maio de 2018

Momento descontração I: Palíndromo / Meraki / Música - "Everything I do,..."

1. - O que é um Palíndromo


Um palíndromo é uma palavra, frase ou qualquer outra sequência de unidades (como uma cadeia de DNA) que tenha a propriedade de poder ser lida tanto da esquerda para a direita como da direita para a esquerda. Num palíndromo, normalmente são desconsiderados os sinais ortográficos (diacríticos ou de pontuação), assim como o espaços entre palavras.

A palavra "palíndromo" vem das palavras gregas palin ("para trás, novamente") e dromos ("caminho, rua") - que corre em sentido inverso.

Rômulo Marinho, veterano palindromista brasileiro, propõe classificar os palíndromos em:

  • Expliciti - trazem sempre uma mensagem direta, clara e inteligível, como "Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos” (palíndromo de autoria anônima, provavelmente o mais conhecido em língua portuguesa).
  • Interpretabiles - têm coerência, mas requerem esforço intelectual do leitor para serem entendidos, como "A Rita, sobre vovô, verbos atira."
  • Insensati - cuidam apenas de juntar letras ou palavras sem se preocupar com o sentido, como "Olé! Maracujá, caju, caramelo."


As frases formando um palíndromo também são chamadas de anacíclicas, do grego anakúklein, significando que volta em sentido inverso, que refaz inversamente o ciclo. (fonte: wikipedia)


2. - Palindromos em algumas línguas


Meu Palíndromo favorito em português, eu vi muito tempo atrás em uma revista da Mônica e reproduzo abaixo. A seguir coloco exemplos em algumas línguas. 

Português: "Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos"



foto de um ônibus transportando passgeiros em todos os lados e em cima na Índia
Foto: desciclopedia

   
   outros - "A cara rajada da jararaca",
                "Aí Lima falou, olá família"
                "E até o Papa, poeta é"
      

Italiano:    "I topi non avevano nipoti"                (Os ratos não tem netos)
                "E la turba brutale"                           (E a perturbação brutal) 
                "I treni inerti"                                   (Os trens inertes)

Inglês:     "A man, a plan, a canal - Panama"    
                                                 (um homem, um plano, um canal Panama)
               "Madam, I'm Adam"                            (Madame, Eu sou Adam) 
               "Never, odd or even)                           (Nunca par ou impar)


Francês:
           "A reveler mon nom, mon nom relevera"  
                                               (ao revelar meu nome, meu nome se elevará)
            "Tracé mon nom a l'ecart"                       (desenhe meu nome à parte)
            "Un soleil de Sud lie l'os nu."                   (Um sol do sul liga o osso nu)


Espanhol:  

            "Adán no cede con Eva,  y Yavé no cede con nada."                   
                                     (Adão não cede com Eva e Javé não cede com nada)

             "Al amanecer asaré cena mala."           
                                                (ao amanhecer prepararei um jantar ruim)

             "Arena mala me da de mala manera." 
                                                (areia ruim dá um mal caminho) 

3. - Palavras que somente tem significado na sua Língua - "Meraki"


"Meraki" - grego - "Derramar-se totalmente em algo. "

Quando você dá tudo de si em uma tarefa o resultado normalmente é bom.

Meraki são apenas 6 letras, que indicam a ação de fazer as coisas com a alma, criatividade e amor. Conhecer esta palavra, mostra que outras palavras poderiam desaparecer e ser substituídas por essa. Se pudéssemos, tudo deveria ser feito com Meraki. 

uma gravura com ilustração para a palavra Meraki -derramar-se todo em alguma coisa


4. - Música - "Everything I do, I do it for you"


"(Everything I Do)" é uma canção do cantor e compositor canadense Bryan AdamsEscrita por Adams, Michael Kamen e Robert John "Mutt" Lange , foi apresentada em dois álbuns simultaneamente em seu lançamento, o álbum de 1991 Robin Hood: Prince of Thieves e no sexto álbum de Adams, Waking Up the Neighbours (1991). 

A canção foi um enorme sucesso internacional, particularmente no Reino Unido, onde passou dezesseis semanas consecutivas em primeiro lugar na UK Singles Chart (a mais longa na história das paradas britânicas). Ela vendeu mais de 15 milhões de cópias em todo o mundo, tornando-se a música de maior sucesso de Adams e um  dos  "singles" mais vendidos de todos os tempos. Posteriormente, a música foi cantada por centenas de cantores e artistas de todo o mundo.




Letra


(Everything I Do) I Do It For You
Look into my eyes
You will see what you mean to me
Search your heart, search your soul
And when you find me there
You'll search no more

Don't tell me
It's not worth trying for

You can't tell me
It's not worth dying for
You know it's true

Everything I do, I do it for you

Just look into your heart
And you will find
There's nothing there to hide
Just take me as I am, take my life
I would give it all
I would sacrifice

Don't tell me
It's not worth fighting for
I can't help it
There's nothing I want more
You know it's true

Everything I do, I do it for you

There's no love like your love

And no other could give more love
There's nowhere, unless you're there
All the time, all the way yeah
Oh, you can't tell me
It's not worth trying for

I can't help it
There's nothing I want more
I would fight for you
I'd lie for you
Walk the wire for you

Yeah, I'd die for you
You know it's true

Everything I do, ooooh

I do it for you


Tudo Que Eu Faço - Eu Faço Por Você
Olhe nos meus olhos
Você verá o que você significa pra mim
Procure em seu coração, procure em sua alma

E quando você me achar lá
Não irá mais procurar

Não me diga

Que não vale a pena tentar
Você não pode me dizer
Que não vale a pena morrer
Você sabe que é verdade

Tudo que eu faço, eu faço por você

Olhe dentro de seu coração
Você irá encontrar
Não há nada lá para esconder
Aceite-me como eu sou, leve minha vida
Eu poderia largar tudo
Eu sacrificaria
Não me diga
Que não vale a pena lutar
Não posso evitar

Não há nada que eu queira mais
Você sabe que é verdade

Tudo que eu faço, eu faço por você

Não há amor, como o seu amor
E nenhum outro poderia me dar mais amor
Não há lugar nenhum, sem que você esteja nele

Todo o tempo, em todo caminho!
Oh,você não pode me dizer
Que não vale a pena lutar
 Não posso evitar
Não há nada que eu queira mais
Eu lutaria por você
Eu mentiria por você
Caminharia no deserto por você
Yeah, eu morreria por você

Você sabe que é verdade

Tudo que eu faço,ooooh

Eu faço por você



5. - Referências


a) Palíndromo

Wikipedia: Palíndromo

https://www.megacurioso.com.br/comunicacao/99015-subi-no-onibus-20-palindromos-que-voce-gostaria-de-ter-imaginado.htm

https://usuaris.tinet.cat/mgine/spa/palidi.htm

b) Meraki


Livro "Lost in Translation" - Ella Frances Sanders

c) Musica


Youtube - Brian Andams
Wikipedia - Everything I do




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